Teimoso assumido, João Carlos Martins ainda aposta na emoção

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Maestro participou de bate-papo com o público na quarta (6), no Teatro Folha

O pianista e maestro João Carlos Martins, 79, brinca que, nos primeiros dez minutos do dia, abre a Folha para checar se o seu nome está nos obituários. “Se não está, peço dois ovos fritos e começo a trabalhar como um louco”, contou ele em entrevista à colunista Mônica Bergamo, na quarta (6).

Promovido pelo jornal e pela editora Sextante, o bate-papo aberto ao público aconteceu no Teatro Folha, em São Paulo. O maestro falou sobre o livro “João de A a Z” (R$ 39,90, 208 págs.), lançado em setembro.

“A de amor, B de Bach, C de concerto”, disse Martins ao citar os três primeiros capítulos da nova obra. Ele reuniu uma série de pensamentos e depoimentos autobiográficos ao longo dos 23 capítulos, utilizando uma palavra para cada letra do abecedário. O maestro escolheu, por exemplo, “neurologia” para a letra N, “velhice” para a letra V e “João” para a letra J.

Quando foi procurado pela editora para escrever o livro, a reação foi enfática. “Esqueça! Parece que eu quero superexposição ou que eu sou marqueteiro”, conta Martins sobre a resposta dada ao editor. Depois, venceu o desejo de contar o que a vida ensinou ao longo da carreira. “Meu destino é tentar deixar um legado”, disse.

O legado de João Carlos Martins como maestro começou a ser construído quando a carreira de pianista foi interrompida. Após o agravamento do quadro de distonia focal, doença neurológica que provoca contrações involuntárias dos músculos e compromete os movimentos, Martins começou a estudar para ser regente.

A nova atividade o ensinou a se emocionar e a respirar junto com a orquestra. “A principal atividade na regência é a fungada”, brincou Martins ao simular os movimentos que executa ao conduzir os músicos da Orquestra Filarmônica Bachiana do Sesi-SP, fundada pelo próprio Martins em 2006, com apoio da iniciativa privada.

Apesar das limitações físicas, Martins ainda toca trechos ao piano, utilizando os polegares e equipamentos ortopédicos. Na abertura do evento, ele executou um trecho de “We thank thee, God, we thank thee”, do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), que era seu compositor preferido quando pianista. Para isso, usou uma dedeira que mantém os dedos esticados e uma munhequeira que dá sustentação aos movimentos do pulso.

Ele também contou que, ao dormir, costuma sonhar que está tocando piano em algum concerto. Ao acordar, lembra-se que não é mais pianista. “Aí eu fecho os olhos de novo e sou feliz porque eu sei que sou maestro.”

Para Martins, é bárbara a sensação de ter permanecido na música, ainda que sob uma nova perspectiva. “Vou levar a música até o apagar das luzes”, afirma.

Depois de responder perguntas do público e da jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha, o maestro voltou ao piano para mais uma breve apresentação. Acompanhado por Hudson Gorzoni, violinista e gerente da Orquestra Filarmônica Bachiana do Sesi-SP, Martins executou um trecho da trilha sonora do filme “A lista de Schindler” (2013).

Enquanto se posicionava ao piano, com movimentos lentos sob os olhos atentos da plateia no teatro Folha, o maestro fez mais uma tirada bem-humorada. “Vocês vão chegar à conclusão de que o meu caso não é de superação, é de teimosia”, afirma.

Fonte: Folha de São Paulo

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